31.5.17

Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, de Yuval Noah Harari


Na categoria de livros-resumo, que condensam e simplificam intervalos históricos complexos, “Sapiens” se destaca pelo incrível envolvimento narrativo e pela forma como seleciona, interliga e contextualiza os eventos mais determinantes nos 200 mil anos de existência da nossa espécie – e até muito antes, nos 2,5 milhões de anos que nos separam dos ancestrais primitivos.

Para sintetizar período tão vasto, o historiador israelense Yuval Noah Harari institui três marcos: o primeiro, ocorrido há cerca de 70 mil anos, remete à capacidade do Homo sapiens de compreensão e comunicação, sem precedente na natureza, que fomentou as bases para subjugo das demais espécies e ocupação de territórios além da África Oriental, onde tudo teve início. A esse fenômeno, o autor dá o nome de Revolução Cognitiva.

Já a Revolução Agrícola, estabelecida por volta de 12 mil anos atrás, é marcada pela domesticação de plantas e animais e pela instalação de assentamentos permanentes. (“Essência da Revolução Agrícola: a capacidade de manter mais pessoas vivas em condições piores.”)

E finalmente, há 500 anos, com as grandes navegações e a conquista da América, deflagra-se a chamada Revolução Científica. “(...) não foi uma revolução do conhecimento. Foi, acima de tudo, uma revolução da ignorância. A grande descoberta que deu início à Revolução Científica foi a de que os humanos não têm respostas para suas perguntas mais importantes.

Em meio a essas balizas estruturais, o livro vai pontuando, sempre num ritmo agradável, espirituoso e avesso a academicismos, outras referências fundamentais na história da humanidade, como a ascensão de grandes impérios, o surgimento da moeda e a proliferação de religiões a partir de crenças politeístas.

Em assuntos mais controversos, Harari cita diferentes teorias e suas implicações. É o caso do debate em torno da procriação dos sapiens com outros tipos humanos, como os neandertais e o Homo erectus – chamada de “teoria da miscigenação” –, em oposição à ideia de que teríamos nos mantidos “puros” – conhecida como “teoria da substituição”.

Se a teoria da substituição estiver correta, todos os humanos existentes têm mais ou menos a mesma bagagem genética, e as distinções raciais entre eles são desprezíveis. Mas se a teoria da miscigenação estiver correta, pode muito bem haver entre africanos, europeus e asiáticos diferenças genéticas que remontam a centenas de milhares de anos atrás. Trata-se de uma dinamite política que poderia fornecer matéria-prima para teorias raciais explosivas.

No livre exercício de resumir um trabalho já abreviado, me arrisco a interpretar que somos o que somos, como espécie, graças basicamente à nossa habilidade de criar ficções e sustentar mitos. “Não há deuses no universo, nem nações, nem dinheiro, nem direitos humanos, nem leis, nem justiça fora da imaginação coletiva dos seres humanos. (...) Você nunca convencerá um macaco a lhe dar uma banana prometendo a ele bananas ilimitadas após a morte no céu dos macacos.

Destaco ainda um trecho que aborda a felicidade como busca permanente dos seres humanos, uma faceta aparentemente óbvia do assunto que nem sempre é lembrada e racionalizada:

Ninguém fica feliz por ganhar na loteria, comprar uma casa, obter uma promoção ou encontrar o amor verdadeiro. As pessoas ficam felizes por um único motivo: sensações agradáveis em seu corpo. Uma pessoa que acabou de ganhar na loteria ou de encontrar um novo amor e pula de alegria na verdade não está reagindo ao dinheiro ou ao fato de ser amado. Está reagindo a vários hormônios que inundam sua corrente sanguínea e à tempestade de sinais elétricos pipocando em diferentes partes do seu cérebro. (...) A felicidade duradoura só vem da serotonina, da dopamina e da oxitocina.