30.12.17

A história dos meus dentes, de Valeria Luiselli


Gosto de personagens esquisitos. Este livro promete um dos bons, logo de saída autoproclamado “melhor leiloeiro do mundo, capaz de imitar Janes Joplin depois de duas cubas-libres, interpretar biscoitos chineses da sorte, colocar um ovo de galinha em pé numa mesa, contar até oito em japonês, boiar de costas”, entre outras substantivas habilidades.

Lá pelas tantas, porém, exagerada a mão no vazio dos desatinos, começa-se a perder a graça. Próximo ao desfecho, a autora dá a entender ter se baseado o tempo todo numa história absurdamente verídica, com inclusão de fotos e descrição de lugares reais, para enfim terminar de maneira bastante infeliz, dando-se ao trabalho de explicar a ficção que melhor estaria abrigada no celeiro da dúvida e da ambiguidade.

6.12.17

É isto um homem?, de Primo Levi


A descrição da rotina em Auschwitz é detalhada. Fome, frio, trabalho extenuante, o inverno que chega e expande os limites do até então considerado suportável pelo ser humano; o rápido sufocamento de noções de dignidade e autoconsciência em nome tão somente da sobrevivência; pequenas corrupções e escambos; idas à enfermaria como abençoados momentos de alívio; a escolha dos destinados às câmaras de gás. Ante o conhecimento progressivo da vida dos prisioneiros no maior campo de concentração nazista, não há como o leitor escapar, egoísta como todos em tempos cruéis, a considerações envolvendo sua própria existência bem-aventurada.

Trecho:
“É um homem quem mata, é um homem quem comete ou suporta injustiças; não é um homem que, perdida já toda reserva, compartilha a cama com um cadáver. Quem esperou que seu vizinho acabasse de morrer para tirar-lhe um pedaço de pão, está mais longe (embora sem culpa) do modelo do homem pensante do que o pigmeu mais primitivo ou o sádico mais atroz.”

Enclausurado, de Ian McEwan


A sinopse pega pelo colarinho: feto em últimas semamas de gestação, cheio de requintes e apurado senso crítico da sociedade moderna, acompanha os planos da mãe e do tio, amantes, para assassinar o próprio pai, ingênuo poeta. Imagine-se o livro!

O problema é que a ideia do bebê literato, filósofo, cientista político e apreciador de vinhos, embora transborde criatividade, não tem a menor chance de criar empatia com o leitor, por mais disposto que esteja em embarcar na brincadeira e até rir-se das boas tiradas. A sensação é de que se está a desperdiçar uma grande voz narrativa sob a roupagem de uma fantasia boba.

A história não traz muita ação, sobram monólogos empolados do embrião erudito e mesmo o elemento policialesco, que poderia acrescentar alguma carga dinâmica ao enredo, não se desenrola a contento – como ocorre, por exemplo, em “Solar”, excepcional romance do mesmo autor.

“Enclausurado” está longe de ser um livro ruim, e Ian McEwan tem muito crédito para gastar com as doideiras que quiser, mas a verdade é que, dessa vez, deixou um pouco a desejar.

As Rãs, de Mo Yan


Ter um Nobel no currículo faz a gente esperar muito do escritor, e esse é o maior problema com Mo Yan e seu “As Rãs”. Visto isoladamente, com seus méritos e excessos, é um bom livro, digno de três estrelas. Atribuído ao ganhador da maior honraria da literatura, produz questionamentos na cabeça do leitor: “É só isso?”

A história começa com recordações de infância do narrador, aspirante a dramaturgo, contadas de maneira leve e agradável. Mas o centro do enredo logo é tomado pela política chinesa do filho único e as implicações provocadas em comunidades do interior do país. Wan Coração, funcionária do governo comunista e tia do narrador, é a personagem forte do romance. Ginecologista responsável por “sete ou oito mil partos”, também faz cumprir à risca a lei do planejamento familiar, executando abortos forçados em milhares de mulheres, ferrenha seguidora das diretrizes do partido.

Apesar das interessantes referências históricas e alguns momentos de acentuado poder dramático, “As Rãs” se arrasta demasiadamente pelos mesmos conflitos e problemáticas, a ponto de a leitura às vezes tornar-se um suplício. Fosse mais enxuto uma boa centena de páginas, teria muito a ganhar.

Matéria escura, de Blake Crouch


Começa um tanto arrastado, flertando com um clima sério de drama familiar que não lhe pertence. O sequestro do protagonista Jason Dessen logo traz a ação e o movimento vendidos pelo marketing da editora, mas ainda assim num ritmo desregulado, vagaroso demais, com muitas cartas escondidas que mantêm o leitor numa incômoda penumbra em relação à proposta e ao rumo da história.

Os holofotes enfim são acesos com a entrada em cena pra valer do artefato construído por Jason no misterioso mundo ao qual foi transportado. Aí o romance passa a distribuir, sem miséria, sua abundante reserva criativa, explorando engenhosamente situações bizarras que a navegação por multiversos criaria, veloz na medida exata e com surpresas garantidas lance a lance – o que é aquela cena da sala de bate-papo, senhoras e senhores? Estupenda!

Em qualquer outro contexto eu implicaria com a verdadeira peste que são os parágrafos de uma só linha (qual a dificuldade de se desenvolver trechos minimamente sólidos e lineares?); também questionaria o pouco detalhamento dado aos aspectos científicos que envolvem a máquina capaz de se deslocar por realidades paralelas; mas dessa vez deixo as picuinhas de lado e fico mesmo com a lembrança dos ótimos momentos de diversão que o conjunto da obra me proporcionou, aquela fissura de devorar um livro que há muito eu não sentia.

O jogo interior do tênis, de W. Timothy Gallwey


Como todo guia de autoajuda, deve ser lido com prudência e desconfiança. Tudo parece lindo no papel, mas quando o cidadão fecha o livro e se depara com a realidade, as complicações são imediatas. De qualquer forma, sempre há o que se tirar de útil num manual clássico e bem conceituado como este. Num esporte como o tênis, em que o controle emocional é tão ou mais relevante que o domínio técnico, orientações como “silencie sua mente e deixe seu corpo fazer o que sabe” ou “não fique remoendo erros no meio do jogo” são especialmente convenientes, embora nada revolucionárias. Tudo ok: para uma atividade de repetição, obviedades repetidas são aceitáveis, quando não bem-vindas. E que o leitor-tenista siga em frente, não esquecendo de jamais, jamais tirar o olho da bola.

13.10.17

A amiga genial, de Elena Ferrante


O que começa apenas como uma história bonitinha, de uma linda amizadezinha entre duas menininhas torna-se, aos poucos, pelo convívio natural e prolongado com as protagonistas e suas inquietações, um relato envolvente, distante da banalidade que se poderia esperar de um enredo do tipo.

A melhora na avaliação deve-se também, e sobretudo, à qualidade da narrativa, que aumenta conforme o texto progride, atingindo, em certos momentos, padrões surpreendentemente elevados.

Por fim, atribui-se parte da atração exercida pelo romance ao microcosmo napolitano pós-Segunda Guerra Mundial, com seus personagens brutos, escandalosos e passionais a rodearem e moldarem o destino das duas amigas – elementos perfeitos para composição de tramas instigantes nas mãos de uma escritora talentosa como Elena Ferrante.

No país das últimas coisas, de Paul Auster


Neste romance distópico de 1987, a ordem social como a conhecemos acabou, mas não somos apresentados aos detalhes de como ocorreu o grande colapso. Também não se sabe exatamente a extensão do apocalipse – a ação se concentra numa cidade, mas fala-se de um país inteiro em ruínas, enquanto o restante do planeta parece ter sido preservado.

O fato é que essas questões virtualmente essenciais tornam-se menores frente aos dramas humanos exibidos com grande sensibilidade pela narradora. Na terra desolada em que Anna Blume se meteu à procura do irmão, correspondente de um jornal que nunca enviou reportagens nem notícias dele próprio, estabeleceu-se uma espécie de lei da selva supervisionada à distância por autoridades nebulosas. A energia é gerada pela queima de lixo, excrementos e cadáveres; a comida é cara e escassa; há pouquíssimas opções de empregos, inacessíveis à maioria da população; clínicas de eutanásia e grupos de suicidas são muito populares; assassinatos, triviais.

Sobreviver nesse mundo é uma improbabilidade que Anna supera dia após dia com nada mais que sorte fictícia. Afinal, precisamos dela bem desperta para continuar escrevendo em seu caderno de capa azul. Abrigada no apartamento de um casal de idosos, no prédio da biblioteca nacional, em uma milagrosa instituição de caridade, ela tem contato com indivíduos em diferentes estágios de loucura e degeneração, enquanto mantém acesa a esperança de encontrar o irmão e talvez até voltar para casa.

Carta a Uma Nação Cristã, de Sam Harris


O neurocientista e filósofo americano Sam Harris não é homem afeito à diplomacia. Em sua carta-livro, adentra com um pontapé o território sacrossanto da crença no divino:

“Embora acreditar firmemente em algo, sem ter provas, seja considerado um sinal de loucura ou estupidez em qualquer outra área de nossa vida, a fé em Deus continua mantendo imenso prestígio na nossa sociedade.”

Para ele, a religião não merece ser sequer tolerada, uma vez que “agrava e exacerba os conflitos humanos muito mais do que o tribalismo, o racismo ou a política jamais poderiam fazer.” E diz mais:

“É terrível pensar que todos nós morremos e perdemos tudo que amamos; é duplamente terrível que tantos seres humanos sofram desnecessariamente enquanto estão vivos. O fato de que uma parte tão grande desse sofrimento pode ser atribuída diretamente à religião — aos ódios religiosos, às guerras religiosas, aos tabus religiosos, aos desvios religiosos de recursos escassos — é o que torna a crítica honesta da fé religiosa uma necessidade moral e intelectual.”

A rigor, o texto é dirigido a cristãos dos Estados Unidos, mas aplica-se a crentes em Deus de qualquer religião em qualquer parte do mundo, como enfatiza o biólogo Richard Dawkins no prefácio.

Diferentemente do próprio Dawkins em seu famoso “Deus, um delírio”, Harris vai sempre direito ao ponto, sem muitos preâmbulos nem densas contextualizações, remexendo em tabus e expondo contradições flagrantes do discurso religioso.

Então a prática do aborto é deplorável?

“Já foi estimado que 50% de todas as concepções humanas terminam em aborto espontâneo, em geral sem que a mulher sequer perceba que estava grávida. Na verdade, 20% de todos os casos de gravidez reconhecidos terminam em aborto espontâneo. Existe aqui uma verdade óbvia e gritante: se Deus existe, ele é o mais prolífico de todos os praticantes de abortos.”

Então acreditar em Deus faz bem?

“Noruega, Islândia, Austrália, Canadá, Suécia, Suíça, Bélgica, Japão, Holanda, Dinamarca e o Reino Unido estão entre as sociedades menos religiosas da Terra. De acordo com o Relatório do Desenvolvimento Humano das Nações Unidas (2005), essas sociedades também são as mais saudáveis, segundo os indicadores de expectativa de vida, alfabetização, renda per capita, nível educacional, igualdade entre os sexos, taxa de homicídios e mortalidade infantil.”

Mas pelo menos o árduo trabalho dos missionários deve ser aplaudido, não?

“Se é verdade que os missionários fazem muitas coisas nobres, com grandes riscos para si mesmos,o fato é que seu dogmatismo dissemina a ignorância e a morte.”

Desculpe, a Bíblia é o melhor alimento espiritual que há no mundo, você disse?

“Incontáveis escrituras discutem a importância do amor que transcende o próprio eu de maneira mais articulada do que a Bíblia, sem serem maculadas pelas obscenas celebrações de violência que encontramos em abundância tanto no Velho como no Novo Testamento.”

Deus não pode ser culpado pelas ações erráticas da humanidade e suas danosas consequências?

"É claro que pessoas de todas as religiões sempre garantem umas às outras que Deus não é responsável pelo sofrimento humano. Mas, então, como compreender a afirmação de que Deus é, ao mesmo tempo, onisciente e onipotente? Esse é o problema antiquíssimo da teodiceia." [justificativa da crença na onipotência e na bondade de Deus, diante da existência do mal no mundo.]

“Já é hora de reconhecermos que é uma verdadeira desgraça que os sobreviventes de uma catástrofe acreditem que foram poupados por um Deus amoroso, enquanto esse mesmo Deus afogava bebês em seus berços.” (aqui o autor faz referência a uma pesquisa do jornal The Washington Post segundo a qual 80% dos sobreviventes do furacão Katrina, que atingiu Nova Orleans em 2005 e deixou mais de mil mortos, afirmaram que a tragédia só serviu para fortalecer sua fé em Deus.)

Religiões são sagradas e devem ser aceitas, de forma irrestrita, onde quer que existam?

"Em toda a Europa, muitas comunidades muçulmanas se mostram pouco inclinadas a adquirir os valores seculares e cívicos dos países que as recebem; e, contudo, elas exploram esses valores ao máximo, exigindo tolerância para a sua misoginia, seu antissemitismo e o ódio religioso constantemente pregado em suas mesquitas."

Como se pode notar, o livro é agressivo contra religiosos em geral, provocador, não poupa nem aqueles tidos como liberais e moderados, maioria entre os fiéis. O problema de uma abordagem dessa natureza é que dificilmente daria margem a diálogo com o leitor a quem supostamente se destina. Em suma: não é realmente uma carta para cristãos, mas uma obra voltada a abastecer ateus convictos com ainda mais argumentos para sua já estabelecida rejeição à ideia de um criador do universo e supervisor da nossa existência.

10.7.17

Não perca a prosa: o pequeno guia da grande arte da escrita, de Antonio Fernando Borges


O bonito design, não sei porquê, me fez acreditar tratar-se de material acadêmico, voltado a dissecar minúcias teóricas da prática da escrita. Não é o caso. O conteúdo na verdade é bastante básico – explora conceitos como frase e parágrafo, diferenças clássicas entre narração, descrição e dissertação, especificidades de textos de ficção e não-ficção, entre outros elementos primários da linguagem. Passagens colhidas de grandes obras da literatura brasileira dão apoio às explicações; dicas de exercícios, em paralelo, arejam a cabeça dos que desejam imergir na labuta beletrista – muito embora algumas sugestões sejam francamente hilárias, como a que orienta o desafortunado aprendiz a reescrever um livro inteiro de José de Alencar apenas para praticar alternância de ponto de vista narrativo.

Quando só restar o mundo, de Mauro Pinheiro


Um solitário operador da bolsa de valores congela sua vida sem perspectivas no Rio de Janeiro e parte numa viagem de carro rumo ao litoral da Bahia a pretexto de reencontrar a ex-namorada. Entre paradas em hotéis e restaurantes de beira de estrada, conhece uma mulher (super sexy, claro) com o filho pequeno e é envolvido numa trama policialesca que põe um belo agito à sua existência insossa.

Percebe-se que o autor não é nenhum iniciante, tem boas sacadas, boas construções, mas falta ousadia para ir além do básico e, por vezes, do clichê. (“Então era isso ter uma mãe. Alguém que estava com a gente para o que desse e viesse. Não eram seres muito diferentes dos animais selvagens que eu via nos documentários da tevê a cabo.”)

Cenas e sentimentos permanecem quase sempre na superfície, inibidos a ponto de frustrar o leitor mais interessado. Diálogos são particularmente ruins, tentativas canhestras de reproduzir a oralidade literal dos personagens.

O último terço alcança uma fluência acima da média, mas acaba obscurecido pelo desfecho forçado, pouco desenvolvido, mal geral de que padece o livro.

Não costumo dar tanta importância às capas, mas essa faz grande esforço para ser notada: é tão feinha que parece uma daquelas publicações amadoras bancadas pelo próprio autor. Inacreditável que tenha passado pelo crivo de uma editora do porte da Rocco.

Hollywood, de Charles Bukowski


Se tem uma coisa que esse livro faz é dar uma sede dos diabos. Afinal, só se vê gente tomando uma cachacinha, o tempo todo, em qualquer circunstância – aliás, cachacinha não: vinho de boa qualidade, que nessa fase da vida, aos quase sessenta, Hank Chinaski, protagonista alter ego do autor, sofisticou-se, não mais metido em subempregos à cata de uns trocados, como noutros tempos e noutros romances, mas agora roteirista de Hollywood escorado em confortos e paparicos.

Sim, mantém-se vivo o espírito do escritor marginal (“Basicamente, era por isso que eu escrevia: para salvar meu rabo, salvar meu rabo do asilo de doidos, das ruas, de mim mesmo”), o viciado em corridas de cavalos, o desencanado com a vida (embora, curiosamente, tenha arrefecido o ardor do mulherengo, fiel que Chinaski tornou-se à presente companheira, Sarah).

Acima de tudo, porém, o que prevalece é a ode ao álcool, sem o qual nada se sustentaria no livro, muito menos as peripécias para filmagem do primeiro longa-metragem redigido por Chinaski, cujo enredo baseia-se em sua juventude irrigada essencialmente – desnecessário dizer – à bendita marvada.