13.10.17

A amiga genial, de Elena Ferrante


O que começa apenas como uma história bonitinha, de uma linda amizadezinha entre duas menininhas torna-se, aos poucos, pelo convívio natural e prolongado com as protagonistas e suas inquietações, um relato envolvente, distante da banalidade que se poderia esperar de um enredo do tipo.

A melhora na avaliação deve-se também, e sobretudo, à qualidade da narrativa, que aumenta conforme o texto progride, atingindo, em certos momentos, padrões surpreendentemente elevados.

Por fim, atribui-se parte da atração exercida pelo romance ao microcosmo napolitano pós-Segunda Guerra Mundial, com seus personagens brutos, escandalosos e passionais a rodearem e moldarem o destino das duas amigas – elementos perfeitos para composição de tramas instigantes nas mãos de uma escritora talentosa como Elena Ferrante.

No país das últimas coisas, de Paul Auster


Neste romance distópico de 1987, a ordem social como a conhecemos acabou, mas não somos apresentados aos detalhes de como ocorreu o grande colapso. Também não se sabe exatamente a extensão do apocalipse – a ação se concentra numa cidade, mas fala-se de um país inteiro em ruínas, enquanto o restante do planeta parece ter sido preservado.

O fato é que essas questões virtualmente essenciais tornam-se menores frente aos dramas humanos exibidos com grande sensibilidade pela narradora. Na terra desolada em que Anna Blume se meteu à procura do irmão, correspondente de um jornal que nunca enviou reportagens nem notícias dele próprio, estabeleceu-se uma espécie de lei da selva supervisionada à distância por autoridades nebulosas. A energia é gerada pela queima de lixo, excrementos e cadáveres; a comida é cara e escassa; há pouquíssimas opções de empregos, inacessíveis à maioria da população; clínicas de eutanásia e grupos de suicidas são muito populares; assassinatos, triviais.

Sobreviver nesse mundo é uma improbabilidade que Anna supera dia após dia com nada mais que sorte fictícia. Afinal, precisamos dela bem desperta para continuar escrevendo em seu caderno de capa azul. Abrigada no apartamento de um casal de idosos, no prédio da biblioteca nacional, em uma milagrosa instituição de caridade, ela tem contato com indivíduos em diferentes estágios de loucura e degeneração, enquanto mantém acesa a esperança de encontrar o irmão e talvez até voltar para casa.

Carta a Uma Nação Cristã, de Sam Harris


O neurocientista e filósofo americano Sam Harris não é homem afeito à diplomacia. Em sua carta-livro, adentra com um pontapé o território sacrossanto da crença no divino:

“Embora acreditar firmemente em algo, sem ter provas, seja considerado um sinal de loucura ou estupidez em qualquer outra área de nossa vida, a fé em Deus continua mantendo imenso prestígio na nossa sociedade.”

Para ele, a religião não merece ser sequer tolerada, uma vez que “agrava e exacerba os conflitos humanos muito mais do que o tribalismo, o racismo ou a política jamais poderiam fazer.” E diz mais:

“É terrível pensar que todos nós morremos e perdemos tudo que amamos; é duplamente terrível que tantos seres humanos sofram desnecessariamente enquanto estão vivos. O fato de que uma parte tão grande desse sofrimento pode ser atribuída diretamente à religião — aos ódios religiosos, às guerras religiosas, aos tabus religiosos, aos desvios religiosos de recursos escassos — é o que torna a crítica honesta da fé religiosa uma necessidade moral e intelectual.”

A rigor, o texto é dirigido a cristãos dos Estados Unidos, mas aplica-se a crentes em Deus de qualquer religião em qualquer parte do mundo, como enfatiza o biólogo Richard Dawkins no prefácio.

Diferentemente do próprio Dawkins em seu famoso “Deus, um delírio”, Harris vai sempre direito ao ponto, sem muitos preâmbulos nem densas contextualizações, remexendo em tabus e expondo contradições flagrantes do discurso religioso.

Então a prática do aborto é deplorável?

“Já foi estimado que 50% de todas as concepções humanas terminam em aborto espontâneo, em geral sem que a mulher sequer perceba que estava grávida. Na verdade, 20% de todos os casos de gravidez reconhecidos terminam em aborto espontâneo. Existe aqui uma verdade óbvia e gritante: se Deus existe, ele é o mais prolífico de todos os praticantes de abortos.”

Então acreditar em Deus faz bem?

“Noruega, Islândia, Austrália, Canadá, Suécia, Suíça, Bélgica, Japão, Holanda, Dinamarca e o Reino Unido estão entre as sociedades menos religiosas da Terra. De acordo com o Relatório do Desenvolvimento Humano das Nações Unidas (2005), essas sociedades também são as mais saudáveis, segundo os indicadores de expectativa de vida, alfabetização, renda per capita, nível educacional, igualdade entre os sexos, taxa de homicídios e mortalidade infantil.”

Mas pelo menos o árduo trabalho dos missionários deve ser aplaudido, não?

“Se é verdade que os missionários fazem muitas coisas nobres, com grandes riscos para si mesmos,o fato é que seu dogmatismo dissemina a ignorância e a morte.”

Desculpe, a Bíblia é o melhor alimento espiritual que há no mundo, você disse?

“Incontáveis escrituras discutem a importância do amor que transcende o próprio eu de maneira mais articulada do que a Bíblia, sem serem maculadas pelas obscenas celebrações de violência que encontramos em abundância tanto no Velho como no Novo Testamento.”

Deus não pode ser culpado pelas ações erráticas da humanidade e suas danosas consequências?

"É claro que pessoas de todas as religiões sempre garantem umas às outras que Deus não é responsável pelo sofrimento humano. Mas, então, como compreender a afirmação de que Deus é, ao mesmo tempo, onisciente e onipotente? Esse é o problema antiquíssimo da teodiceia." [justificativa da crença na onipotência e na bondade de Deus, diante da existência do mal no mundo.]

“Já é hora de reconhecermos que é uma verdadeira desgraça que os sobreviventes de uma catástrofe acreditem que foram poupados por um Deus amoroso, enquanto esse mesmo Deus afogava bebês em seus berços.” (aqui o autor faz referência a uma pesquisa do jornal The Washington Post segundo a qual 80% dos sobreviventes do furacão Katrina, que atingiu Nova Orleans em 2005 e deixou mais de mil mortos, afirmaram que a tragédia só serviu para fortalecer sua fé em Deus.)

Religiões são sagradas e devem ser aceitas, de forma irrestrita, onde quer que existam?

"Em toda a Europa, muitas comunidades muçulmanas se mostram pouco inclinadas a adquirir os valores seculares e cívicos dos países que as recebem; e, contudo, elas exploram esses valores ao máximo, exigindo tolerância para a sua misoginia, seu antissemitismo e o ódio religioso constantemente pregado em suas mesquitas."

Como se pode notar, o livro é agressivo contra religiosos em geral, provocador, não poupa nem aqueles tidos como liberais e moderados, maioria entre os fiéis. O problema de uma abordagem dessa natureza é que dificilmente daria margem a diálogo com o leitor a quem supostamente se destina. Em suma: não é realmente uma carta para cristãos, mas uma obra voltada a abastecer ateus convictos com ainda mais argumentos para sua já estabelecida rejeição à ideia de um criador do universo e supervisor da nossa existência.