12.9.16

Silo, de Hugh Howey


Boa história, intrigante, nas mãos de um escritor problemático, que confunde suspense com enrolação, riqueza descritiva com prolixidade aborrecente. (“Ela ergueu o braço e conferiu alguma coisa pendurada no pulso. Era um relógio.”) O livro é tão estufado que a heroína só aparece lá para a página 100. Personagens coadjuvantes são nutridos desnecessariamente ao longo de capítulos e mais capítulos, fazendo esfriar a expectativa em torno do que realmente interessa. Tentativas de aprofundamento psicológico são vãs; insinuações amorosas, apenas tolas. O segredo é ir pulando páginas sem dó nem piedade até que as coisas de fato aconteçam e façam valer a paciência do leitor condescendente.

A história se passa num futuro indefinido, quando a atmosfera da Terra tornou-se tóxica e os sobreviventes são obrigados a se manter num gigantesco silo subterrâneo, sob regras autoritárias e divisões rígidas. Embora bem arquitetada, a concepção desse mundo claustrofóbico apresenta inconsistências imperdoáveis: houve tecnologia disponível para perfuração de 144 andares, há recursos para manutenção de uma sociedade complexa e autossuficiente num ambiente não natural para o homem, mas toda a locomoção interna é realizada por escadas, sem que se faça uma única referência, em todo o livro, ao conceito complexíssimo de transporte por meio de cordas e polias, também conhecido, em sua forma sofisticada, como elevador.

Outro aspecto forçado: boa parte da trama se baseia na necessidade de condenados à morte fazerem a limpeza dos visores externos do silo, sem que jamais se cogite a possibilidade – ou o motivo da impossibilidade – de o serviço ser executado por mecanismos robóticos ou algo do tipo.

Tudo bem, podemos fechar os olhos a esses buracos e seguir em frente. Há boas surpresas e um fio de tensão razoavelmente bem mantido. A satisfação por termos chegado ao fim é tamanha que nem ligamos para o fato de certas pontas ficarem soltas, deixadas para sabe-se lá para quantos volumes posteriores da série. De qualquer forma, já fomos longe demais. Para nós, “Silo” termina no preciso volume em que começou.

6.9.16

Sangue na Neve, de Jo Nesbo



Matador de aluguel é contratado para executar esposa do cliente. Quando chega a hora, subverte a ordem, resgata a mocinha e – surpresa! – dela se enamora fogosamente.

É nesse diapasão que seguimos em “Sangue na Neve”, nos perguntando o tempo todo por que diabos não largamos essa porcaria e partimos para outra. Pior que o clichê-base é a tentativa de revestir o protagonista de certa bagagem intelectual que ele próprio rechaça, frouxo de dar vergonha. “Então, gente: não é que eu assuma esse rótulo metido a besta de ser um leitor assíduo nem nada, porque sou um cara muito desencanado e fora da lei sanguinário, mas eu li, meio sem querer em algum lugar, tal coisa x; e li também, em um jornal velho achado por aí, outra coisa y...”

Por alguma frase dispersa no início sabemos que estamos em 1976, mas a informação é irrelevante: não há outra referência ou fato encorpado que se dê ao trabalho de contextualizar a época – década de 1970, 1990 ou dias atuais, whatever, para usar expressão que aparece novecentas vezes nas poucas páginas do romancezinho. No mais, a friaca escandinava, que poderia conceder algum charme ao boneco de neve, nem ela é explorada com eficiência.

Repeteco em Jo Nesbo, de quem nunca tinha lido nada, muito difícil.