31.10.16

Homem lento, de J. M. Coetzee


Fiquei curioso em saber como J. M. Coetzee, Nobel de Literatura em 2003, exploraria as consequências psicológicas da amputação de uma perna num homem de 60 anos já naturalmente propenso à solidão. Eis que, como imaginado, o escritor sul-africano conduz os eflúvios mentais do personagem Paul Rayment com grande destreza. Entre sentimentos de autocomiseração e fantasias de suicídio, Paul de repente se vê enamorado da enfermeira sob cujos cuidados está entregue. Tudo muda. Ele mergulha numa excitação hesitante. Deve abrir o coração, tentar uma investida? Mas a mulher é casada, tem filhos já adolescentes, e ele velho, aleijado, em posição tão frágil...

Nesse ponto surge uma personagem deslocada, Elizabeth Costello, e o compasso agradável se quebra. Alter ego de Coetzee, Elizabeth funciona como uma impertinente voz da consciência sobre Paul, e com seu lenga-lenga só faz chatear. Pior: o autor parece utilizar-se de Elizabeth para expor sua hesitação quanto ao grau de interesse que Paul seria capaz de despertar na condição de protagonista: “Quando fui bater na sua porta, não foi para descobrir como um homem anda de bicicleta com uma perna só. Eu fui para descobrir o que acontece quando um homem de sessenta anos compromete seu coração com a pessoa errada. E, se não se importa que eu diga, você até agora está sendo uma triste decepção.

Ainda que Elizabeth Costello constitua um par de grilhões sobre o ritmo da narrativa, não elimina os méritos de “Homem lento”. É um bom romance.

29.10.16

Lugar nenhum, de Neil Gaiman


Parte de um bom preceito ao apresentar uma Londres subterrânea num universo paralelo de leis e lógicas singulares. Escapole ao meu joinha ao povoar este submundo com anjos, ratos sábios e uma hierarquia de castas mais inclinada ao paladar fantasioso-adolescente. Bem, como posso reclamar? Eu devia saber onde estava me metendo. De qualquer forma, “Lugar nenhum” é ok, especialmente divertido nas figuras dos vilões Sr. Croup e Sr. Vandemar, carniceiros à O Gordo e O Magro.

Breve romance de sonho, de Arthur Schnitzler


 “De Olhos Bem Fechados”, último filme de Stanley Kubrick, foi baseado nesta novela publicada em 1926 pelo austríaco Arthur Schnitzler. Enquanto o longa com Tom Cruise e Nicole Kidman é situado na Nova York moderna, no livro somos levados a uma Viena repleta de lampiões e movida por prestimosos serviços de carruagem. O tom da narrativa, sóbrio e elegante, harmoniza bem com o pano de fundo aristocrático. Trata-se de uma história de infidelidades veladas, cujas meras sugestões – sejam em sonhos, sejam em eventos reais extraordinários – podem ser capazes de abalar o equilíbrio de um jovem casal.

A queda, de Diogo Mainardi



Certas matérias são tão dominantes na vida de um escritor que torna-se imperativo, mais cedo ou mais tarde, que ele as explore em seu trabalho. É o caso da paralisia cerebral de Tito, filho de Diogo Mainardi. Como poderia o ficcionista evitar o assunto ao redor do qual orbita sua rotina, seus temores, anseios, expectativas – toda sua existência, enfim?

Aceito o desafio inescapável, o risco de se enveredar para uma abordagem “vergonhosamente sentimental”, como expressa o próprio Mainardi, é enorme. Num raro modelo bem sucedido, Cristovão Tezza, em seu “O filho eterno”, escapa à armadilha ao tratar da síndrome de Down do filho de modo franco e despido de falácias. Por vias distintas, Mainardi obtém o mesmo bom efeito em “A queda”.

Em vez de valer-se de uma narrativa em terceira pessoa, como prefere Tezza, Mainardi escancara-se num relato autobiográfico duro mas igualmente sensível, pungente mas lírico à sua maneira cínica. O livro é fracionado em 424 trechos sucintos compostos de frases, citações, imagens, não mais que dois ou três parágrafos. Lê-se de uma sentada, graças à prosa fluente e às correlações habilidosas que o autor faz entre a doença do filho e as mais variadas coincidências históricas e artísticas, do Renascimento ao Holocausto, do cinema antigo à música pop moderna.

Diário de um fescenino, de Rubem Fonseca


Estava com quatro leituras em andamento, não pretendia engatilhar uma quinta, mas o romance é de tal maneira envolvente que, iniciada a ingênua passagem de olho pelos primeiros parágrafos, não houve jeito de interromper o fluxo até o término-fim, apenas dois dias depois. Dizem que foi concebido como encomenda temática da editora, e talvez isso explique a leveza e o descompromisso do texto, nem de longe indicadores de baixa qualidade, antes garantias de uma excelente peça de entretenimento que ri e se diverte de si mesma, contaminando o leitor. O fescenino em questão (obsceno, lascivo) é um escritor metido a erudito que nunca conseguiu repetir o sucesso de seu primeiro livro e agora vive mais enrolado com conquistas amorosas do que qualquer outra coisa. Sua ousadia concupiscente o levará a certas complicações que dão saborosa atmosfera policial ao terço derradeiro da história.

Trecho:

“Pela lei brasileira nenhuma mulher pode ser constrangida a fazer sexo, nem uma prostituta, nem mesmo a mulher do acusado. A conjunção sexual violenta sempre, quer dizer, desde que o direito passou a controlar a barbárie criando uma consciência no homem, e em quase toda parte do mundo, foi considerada um crime – Notzucht, viol, violación, rape, violenza carnale ou stupro –, cujo castigo varia de multa a pena de morte. Esse constrangimento a que se refere o artigo 213 do nosso Código Penal pode ser a vis corporalis ou a vis compulsiva, ou seja, violência física ou ameaça grave. A ameaça tem que ser coerciva em relação à vítima. Se um padre diz a uma beata de cinquenta anos que ela tem que fazer sexo com ele, do contrário vai para o inferno, está caracterizada a ameaça grave, uma velha beata tem mais medo do inferno do que de um revólver apontado para sua cabeça.

“O senhor está me dando um aula?”

“Você, por favor. Não, lamento ter-lhe dado esta impressão”, disse Gouvêa&Soares, nitidamente agastado. Ele devia gostar de exibir os seus conhecimentos, ouvindo as próprias vogais arredondadas saírem rolando da sua boca. “Pensei que o senhor, você, sendo um escritor, se interessaria por saber esses meandros da lei.”