10.7.17
Não perca a prosa: o pequeno guia da grande arte da escrita, de Antonio Fernando Borges
Quando só restar o mundo, de Mauro Pinheiro
Percebe-se que o autor não é nenhum iniciante, tem boas sacadas, boas construções, mas falta ousadia para ir além do básico e, por vezes, do clichê. (“Então era isso ter uma mãe. Alguém que estava com a gente para o que desse e viesse. Não eram seres muito diferentes dos animais selvagens que eu via nos documentários da tevê a cabo.”)
Cenas e sentimentos permanecem quase sempre na superfície, inibidos a ponto de frustrar o leitor mais interessado. Diálogos são particularmente ruins, tentativas canhestras de reproduzir a oralidade literal dos personagens.
O último terço alcança uma fluência acima da média, mas acaba obscurecido pelo desfecho forçado, pouco desenvolvido, mal geral de que padece o livro.
Não costumo dar tanta importância às capas, mas essa faz grande esforço para ser notada: é tão feinha que parece uma daquelas publicações amadoras bancadas pelo próprio autor. Inacreditável que tenha passado pelo crivo de uma editora do porte da Rocco.
Não costumo dar tanta importância às capas, mas essa faz grande esforço para ser notada: é tão feinha que parece uma daquelas publicações amadoras bancadas pelo próprio autor. Inacreditável que tenha passado pelo crivo de uma editora do porte da Rocco.
Hollywood, de Charles Bukowski
Se tem uma coisa que esse livro faz é dar uma sede dos diabos. Afinal, só se vê gente tomando uma cachacinha, o tempo todo, em qualquer circunstância – aliás, cachacinha não: vinho de boa qualidade, que nessa fase da vida, aos quase sessenta, Hank Chinaski, protagonista alter ego do autor, sofisticou-se, não mais metido em subempregos à cata de uns trocados, como noutros tempos e noutros romances, mas agora roteirista de Hollywood escorado em confortos e paparicos.
Sim, mantém-se vivo o espírito do escritor marginal (“Basicamente, era por isso que eu escrevia: para salvar meu rabo, salvar meu rabo do asilo de doidos, das ruas, de mim mesmo”), o viciado em corridas de cavalos, o desencanado com a vida (embora, curiosamente, tenha arrefecido o ardor do mulherengo, fiel que Chinaski tornou-se à presente companheira, Sarah).
Acima de tudo, porém, o que prevalece é a ode ao álcool, sem o qual nada se sustentaria no livro, muito menos as peripécias para filmagem do primeiro longa-metragem redigido por Chinaski, cujo enredo baseia-se em sua juventude irrigada essencialmente – desnecessário dizer – à bendita marvada.
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