10.7.17

Não perca a prosa: o pequeno guia da grande arte da escrita, de Antonio Fernando Borges


O bonito design, não sei porquê, me fez acreditar tratar-se de material acadêmico, voltado a dissecar minúcias teóricas da prática da escrita. Não é o caso. O conteúdo na verdade é bastante básico – explora conceitos como frase e parágrafo, diferenças clássicas entre narração, descrição e dissertação, especificidades de textos de ficção e não-ficção, entre outros elementos primários da linguagem. Passagens colhidas de grandes obras da literatura brasileira dão apoio às explicações; dicas de exercícios, em paralelo, arejam a cabeça dos que desejam imergir na labuta beletrista – muito embora algumas sugestões sejam francamente hilárias, como a que orienta o desafortunado aprendiz a reescrever um livro inteiro de José de Alencar apenas para praticar alternância de ponto de vista narrativo.

Quando só restar o mundo, de Mauro Pinheiro


Um solitário operador da bolsa de valores congela sua vida sem perspectivas no Rio de Janeiro e parte numa viagem de carro rumo ao litoral da Bahia a pretexto de reencontrar a ex-namorada. Entre paradas em hotéis e restaurantes de beira de estrada, conhece uma mulher (super sexy, claro) com o filho pequeno e é envolvido numa trama policialesca que põe um belo agito à sua existência insossa.

Percebe-se que o autor não é nenhum iniciante, tem boas sacadas, boas construções, mas falta ousadia para ir além do básico e, por vezes, do clichê. (“Então era isso ter uma mãe. Alguém que estava com a gente para o que desse e viesse. Não eram seres muito diferentes dos animais selvagens que eu via nos documentários da tevê a cabo.”)

Cenas e sentimentos permanecem quase sempre na superfície, inibidos a ponto de frustrar o leitor mais interessado. Diálogos são particularmente ruins, tentativas canhestras de reproduzir a oralidade literal dos personagens.

O último terço alcança uma fluência acima da média, mas acaba obscurecido pelo desfecho forçado, pouco desenvolvido, mal geral de que padece o livro.

Não costumo dar tanta importância às capas, mas essa faz grande esforço para ser notada: é tão feinha que parece uma daquelas publicações amadoras bancadas pelo próprio autor. Inacreditável que tenha passado pelo crivo de uma editora do porte da Rocco.

Hollywood, de Charles Bukowski


Se tem uma coisa que esse livro faz é dar uma sede dos diabos. Afinal, só se vê gente tomando uma cachacinha, o tempo todo, em qualquer circunstância – aliás, cachacinha não: vinho de boa qualidade, que nessa fase da vida, aos quase sessenta, Hank Chinaski, protagonista alter ego do autor, sofisticou-se, não mais metido em subempregos à cata de uns trocados, como noutros tempos e noutros romances, mas agora roteirista de Hollywood escorado em confortos e paparicos.

Sim, mantém-se vivo o espírito do escritor marginal (“Basicamente, era por isso que eu escrevia: para salvar meu rabo, salvar meu rabo do asilo de doidos, das ruas, de mim mesmo”), o viciado em corridas de cavalos, o desencanado com a vida (embora, curiosamente, tenha arrefecido o ardor do mulherengo, fiel que Chinaski tornou-se à presente companheira, Sarah).

Acima de tudo, porém, o que prevalece é a ode ao álcool, sem o qual nada se sustentaria no livro, muito menos as peripécias para filmagem do primeiro longa-metragem redigido por Chinaski, cujo enredo baseia-se em sua juventude irrigada essencialmente – desnecessário dizer – à bendita marvada.