23.11.16

Angosta, de Héctor Abad


Grata surpresa de romance distópico convenientemente afastado das bobagens juvenis que têm tomado conta do gênero nos últimos tempos. Na cidade de Angosta, ricos vivem em uma área exclusiva, enquanto o restante da população é tratado com escandaloso desprezo pelo governo e afunda à própria sorte. O protagonista, Jacobo, é um livreiro que transformou sua biblioteca particular em sebo e mora num hotel outrora ilustre no centro da cidade. Também no hotel, em um quarto-poleiro, vive o jovem Andrés, poeta sensível esculhambado pela família, em especial pelo irmão militar. Ao destino dos dois mistura-se a primaveril Camila, amante de um mafioso da área nobre de Angosta. Político, cruel, movimentado, “Angosta” é sobretudo um livro admiravelmente bem escrito, que depressa me fez ir atrás de outros títulos do autor colombiano e engatilhá-los para leitura em breve.

17.11.16

Meia-noite e vinte, de Daniel Galera

Em meio a uma onda de calor devastadora e a uma greve de ônibus que paralisa a cidade, três amigos se reencontram em Porto Alegre. No final dos anos 1990, eles haviam incendiado a internet com o Orangotango, um fanzine digital que se tornou cultuado em todo o Brasil. Agora, quase duas décadas depois, a morte do quarto integrante do grupo vai reaproximá-los.

Daniel Galera se situa bem acima da média no painel dos autores brasileiros contemporâneos. Sempre atribuí o destaque sobretudo à fluidez pragmática de sua prosa, destituída de experimentalismos que tanto aborrecem e afastam leitores. Em “Meia-noite e vinte”, seu quinto título, o traço da agradável fluidez segue presente, enriquecido por uma recorrência de belas passagens que vem acrescentando cada vez mais densidade à obra do jovem escritor gaúcho.

A tal densidade, neste último livro, para mim, está mais ligada ao apuro na elaboração de frases e sentenças – leves e vistosas ao mesmo tempo – do que à temática em si: me parece superdimensionada a importância da revista literária online em torno da qual se ergue a trama, uma diabrura adolescente do fim dos anos 1990 cuja repercussão se estende até os dias atuais. Antero, um dos criadores, é reconhecido no meio da rua quase duas décadas depois; Duque, o principal nome da revista, é morto em uma tentativa de assalto e provoca algo perto de uma comoção nacional – fãs à porta do cemitério, agitação na imprensa e outros desmembramentos mais condizentes com a morte violenta de um ator de novelas, não de um escritor brasileiro marginal.

Mesmo a riqueza discursiva, ponto alto da obra, transparece certa inconsistência ao se dissolver na figura de três narradores: são todos muito bem articulados, precisos na transmissão de sensações e repletos de referências, mas faltam marcas que os caracterize individualmente e os diferencie um do outro de forma inequívoca e contundente, como se espera de vozes expressas em primeira pessoa.

Quando os protagonistas, na faixa dos 40 anos, se afastam um pouco de seus delírios de importância juvenil e se voltam às questões mundanas do presente, somos brindados com as melhores partes do livro. A descrição do trabalho de Aurora como pesquisadora da USP em genética da cana-de-açúcar é especialmente interessante e bem fundamentada.

Destaque também para a maneira com que certas intimidades são expostas, naturais, sem subterfúgios, em particular aquelas praticadas sob o anonimato da internet – além da sensibilidade de Galera de ter encarnado uma voz gay e um ponto de vista feminino sem decair num tom artificial e inverossímil.

4.11.16

Uma menina está perdida no seu século à procura do pai, de Gonçalo M. Tavares


A menina, o pai, o homem que a encontra por acaso e se põe a ajudá-la em sua busca: nada desenhado no título é tratado com prioridade. O que de fato preenche o livro são as histórias paralelas de personagens com os quais homem e menina deparam em seu caminho, vá lá, “investigatório” – há que se ter boa vontade para chamá-lo assim, porque investigação mesmo, na acepção pragmática do termo, há bem pouca.

Não que sejam desinteressantes as figuras que tomam conta do enredo e o desviam de sua proposta central; são, pelo contrário, todas elas criaturas muito curiosas, inclinadas a certos desvios cognitivos: há um sujeito que coleciona fotografias de animais sempre em três posições diferentes; outro dotado de um olho sobre-humano capaz de escrever frases minúsculas só identificáveis com ajuda de microscópio; e um outro ainda dedicado a redigir, em cadernos que se amontoam por gerações, sequências infinitas de números pares.


A questão é que, se eu quisesse ler histórias avulsas, com pouca ou nenhuma conexão entre si, escolheria um livro de contos, não um romance.

Ainda no campo das impressões não concretizadas, vale referência à capa e ao texto da orelha, cuja ambientação sugerida (“... em meio a uma paisagem de escombros...”) não reverbera no livro em si, bastante econômico nas descrições espaciais.

Outro aspecto que chama atenção é a alternância constante do ponto de vista narrativo, em terceira e primeira pessoas, sem aparente razão de ser. Incomoda também o excesso de fragmentação – são 15 capítulos e nada menos que 48 subdivisões, cada uma com um título individual, às vezes de teor enigmático, em cujas sofisticadas entrelinhas talvez escondam-se pistas para aquilo que o texto faz charme em revelar. Mas, aqui entre nós: quem vai se dar ao trabalho? A fila é grande; a obra, apenas razoável, não justifica semelhante dedicação extrafísica.

Ao leitor brasileiro, resta saborear as delícias do português lusitano – é um tal de “sítio” pra lá, “algures” pra cá, um repentino “miúdo” a pegar de surpresa e lembrar como as possibilidades do idioma podem ser amplas e belas.