Lá pelas tantas, porém, exagerada a mão no vazio dos desatinos, começa-se a perder a graça. Próximo ao desfecho, a autora dá a entender ter se baseado o tempo todo numa história absurdamente verídica, com inclusão de fotos e descrição de lugares reais, para enfim terminar de maneira bastante infeliz, dando-se ao trabalho de explicar a ficção que melhor estaria abrigada no celeiro da dúvida e da ambiguidade.
30.12.17
A história dos meus dentes, de Valeria Luiselli
Lá pelas tantas, porém, exagerada a mão no vazio dos desatinos, começa-se a perder a graça. Próximo ao desfecho, a autora dá a entender ter se baseado o tempo todo numa história absurdamente verídica, com inclusão de fotos e descrição de lugares reais, para enfim terminar de maneira bastante infeliz, dando-se ao trabalho de explicar a ficção que melhor estaria abrigada no celeiro da dúvida e da ambiguidade.
6.12.17
É isto um homem?, de Primo Levi
Trecho:
“É um homem quem mata, é um homem quem comete ou suporta injustiças; não é um homem que, perdida já toda reserva, compartilha a cama com um cadáver. Quem esperou que seu vizinho acabasse de morrer para tirar-lhe um pedaço de pão, está mais longe (embora sem culpa) do modelo do homem pensante do que o pigmeu mais primitivo ou o sádico mais atroz.”
Enclausurado, de Ian McEwan
O problema é que a ideia do bebê literato, filósofo, cientista político e apreciador de vinhos, embora transborde criatividade, não tem a menor chance de criar empatia com o leitor, por mais disposto que esteja em embarcar na brincadeira e até rir-se das boas tiradas. A sensação é de que se está a desperdiçar uma grande voz narrativa sob a roupagem de uma fantasia boba.
A história não traz muita ação, sobram monólogos empolados do embrião erudito e mesmo o elemento policialesco, que poderia acrescentar alguma carga dinâmica ao enredo, não se desenrola a contento – como ocorre, por exemplo, em “Solar”, excepcional romance do mesmo autor.
“Enclausurado” está longe de ser um livro ruim, e Ian McEwan tem muito crédito para gastar com as doideiras que quiser, mas a verdade é que, dessa vez, deixou um pouco a desejar.
As Rãs, de Mo Yan
Ter um Nobel no currículo faz a gente esperar muito do escritor, e esse é o maior problema com Mo Yan e seu “As Rãs”. Visto isoladamente, com seus méritos e excessos, é um bom livro, digno de três estrelas. Atribuído ao ganhador da maior honraria da literatura, produz questionamentos na cabeça do leitor: “É só isso?”
A história começa com recordações de infância do narrador, aspirante a dramaturgo, contadas de maneira leve e agradável. Mas o centro do enredo logo é tomado pela política chinesa do filho único e as implicações provocadas em comunidades do interior do país. Wan Coração, funcionária do governo comunista e tia do narrador, é a personagem forte do romance. Ginecologista responsável por “sete ou oito mil partos”, também faz cumprir à risca a lei do planejamento familiar, executando abortos forçados em milhares de mulheres, ferrenha seguidora das diretrizes do partido.
Apesar das interessantes referências históricas e alguns momentos de acentuado poder dramático, “As Rãs” se arrasta demasiadamente pelos mesmos conflitos e problemáticas, a ponto de a leitura às vezes tornar-se um suplício. Fosse mais enxuto uma boa centena de páginas, teria muito a ganhar.
Matéria escura, de Blake Crouch
Os holofotes enfim são acesos com a entrada em cena pra valer do artefato construído por Jason no misterioso mundo ao qual foi transportado. Aí o romance passa a distribuir, sem miséria, sua abundante reserva criativa, explorando engenhosamente situações bizarras que a navegação por multiversos criaria, veloz na medida exata e com surpresas garantidas lance a lance – o que é aquela cena da sala de bate-papo, senhoras e senhores? Estupenda!
Em qualquer outro contexto eu implicaria com a verdadeira peste que são os parágrafos de uma só linha (qual a dificuldade de se desenvolver trechos minimamente sólidos e lineares?); também questionaria o pouco detalhamento dado aos aspectos científicos que envolvem a máquina capaz de se deslocar por realidades paralelas; mas dessa vez deixo as picuinhas de lado e fico mesmo com a lembrança dos ótimos momentos de diversão que o conjunto da obra me proporcionou, aquela fissura de devorar um livro que há muito eu não sentia.
O jogo interior do tênis, de W. Timothy Gallwey
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