4.3.16

Fase 24


Bater na porta de alguém às seis da manhã é uma indecência, reconhece o agente da Polícia Federal ainda no elevador, acompanhado por quatro colegas em silenciosa expectativa. Toda vez que fazem operações desse tipo – e vêm se tornando frequentes nos últimos meses –, ele renova a esperança de encontrar o alvo de pijama, com a cara amassada, o cabelo bagunçado, emanando o hálito azedo de quem não pôde se esmerar no gargarejo com Listerine azul. Faria mais sentido. Daria mais humanidade ao evento. 

No entanto, sabe que é uma ideia ingênua. Quando a porta se abre, lá está O Homem perfeitamente desperto, a mítica barba aparada, vestido como que à espera. Convida-os a entrar, pede desculpa pela mesa bagunçada do café da manhã. Sua cortesia é desmascarada pela forma como atira à boca uma migalha de pão francês e os encara de braços cruzados. “Vamos lá, estou esperando, façam seu teatrinho jurídico, apresentem o mandado”, parece desafiar.

O agente se esforça para ignorá-lo. Não é fácil. Não se trata de mais um figurante a ser espremido e esquecido em poucos meses. Está diante de ninguém menos que a figura central do grupo, apontam as investigações; do dito cabeça pensante, líder carismático em torno do qual se erguiam muralhas até então inescaláveis.

Mas o agente pode se tranquilizar. Dispõe de um elemento diferenciado nas mãos. Um elemento que autoriza inclusive imposição de força em caso de rebeldia: condução coercitiva, é como chamam. Experimente, Don Corleone, experimente fazer gracinha, armar o circo, engrossar a voz para mim como faz com a sua militância e com a massa que te segue: seu poder, hoje, não vale nada.

Naturalmente, O Homem não apresenta resistência. Não chegou onde chegou com gestos impulsivos. É dotado de frieza para reconhecer o momento de ficar calado e seguir ordens. Haverá reação, sem dúvida, mas não agora. Não agora...

O agente o conduz pelas costas, impaciente. Logo mais virão as aglomerações em frente ao prédio, os carros de imprensa, os helicópteros circundando o perímetro. Irrita-se com o risinho que O Homem insiste em ostentar. Na próxima visita, o agente espera, do fundo do coração, poder fazer uso das algemas que carrega na cintura. Resistirá, então, o desdém?

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