10.3.16

Enigma sem Andrômeda


Fico meio ressabiado em ler obras de ficção científica escritas há muito tempo, naquele subgênero que se pretende mais realista, enquadrado em evidências plausíveis e não apenas na imaginação desregrada do autor. A ciência progrediu de forma tão decisiva nos últimos anos que é grande a possibilidade de um desses títulos antigos, lido hoje, soar inverossímil e defasado.

Em boa medida, o receio é tolice da minha parte: não é porque Carl Sagan (morto em 1996) foi privado das fantásticas descobertas da sonda espacial Kepler (lançada em 2009), por exemplo, que a obra do grande cosmólogo americano perde uma fagulha de validade. Do mesmo jeito, não é porque Stephen Hawking contradisse recentemente suas próprias teorias acerca da configuração dos buracos negros que as explanações contidas em seu “Buracos Negros, Universos Bebês e Outros Ensaios”, de 1993, se transformaram em material de descarte.

Por outro lado, uma obra como “A guerra dos mundos”, de H. G. Wells, publicada no final do século 19, que concebe a invasão da Terra por marcianos hostis, ao ser lida hoje, com as informações que temos sobre o planeta vermelho, ganha contornos da mais pura fanfarronice. Se pelo menos o conflito envolvesse astros remotos sobre os quais pouco ou nada sabemos...


Sonda Curiosity

Foi nessa linha que apostei para investir em “O Enigma de Andrômeda”, do best-seller americano Michael Crichton, autor de "Congo" e "Parque dos Dinossauros". Embora publicado em 1969, o romance indicava tratar de uma galáxia a 2,54 milhões de anos-luz da Terra. Baseado em Andrômeda, pensei eu, qualquer enredo, por mais pirado que se apresente, não pode, em nossa suprema ignorância, ser inteiramente desconsiderado.

(Por isso mesmo um livro como “Contato”, do já mencionado Carl Sagan, transformado em filme com Judie Foster, é tão poderoso até hoje. Ele fantasia a recepção de mensagens alienígenas codificadas vindas da estrela Vega, a “apenas” 25 anos-luz de distância – mas quem põe a mão no fogo para dizer que esse tipo de coisa, vinda de tão longe, não é possível?)

No fim das contas, de Andrômeda, no romance de Crichton, não há nada. E essa é a principal frustração com o livro. Quem leva a sério o raio do título e espera que a história de alguma forma se relacione com nossa galáxia vizinha, lá pelas tantas descobre que foi apenas um nome aleatório dado ao objeto em torno do qual a trama realmente se constrói: um satélite, posto em órbita da Terra para coleta de eventuais micro-organismos existentes no espaço, que depois de um breve sumiço reaparece, pousa numa pequena cidade do Arizona e provoca a morte de quase todo mundo que se aproxima.

Não são alienígenas cabeçudos que vêm escondidos dentro do satélite, mas um micro-organismo desconhecido e letal, que os cientistas batizam, pimba, de Espécie Andrômeda. Poderia ser Espécie Alpha Centauri, Espécie Constelação de Órion, Espécie Canis Major – não faria diferença. Andrômeda entra como sinônimo de “não-sabemos-de-que-caralhos-veio-essa-coisa”.

Cogitei cachorrada na tradução. Qual o quê! O título original conduz à mesma embromação: “The Andromeda Strain”.

Superada essa implicância titular, pode-se dizer que o livro é bom! A premissa de organismos trazidos do espaço com os quais nossos anticorpos são incapazes de lidar me parece bastante razoável. E a coisa fica mais interessante se considerarmos que essas microscópicas entidades alienígenas podem apresentar características de espantosa inteligência.

Destaquei um trecho:

“[Na Terra] Ao se tornarem mais inteligentes, os organismos cresciam, deixando o estágio unicelular, para se transformarem em criaturas multicelulares e posteriormente em animais de células diferenciadas, trabalhando em grupos denominados órgãos. Na Terra, a tendência desenvolvera-se no sentido de animais maiores e mais complexos. Entretanto, o mesmo poderia não se aplicar a outras partes do universo. Em outros planetas, a vida poderia progredir em sentido inverso – em direção a formas cada vez menores. Assim como a moderna tecnologia humana aprendera a fazer coisas cada vez menores, talvez existissem pressões evolutivas super-avançadas conduzindo a formas de vida menores. Haveria indubitáveis vantagens nessas formas menores: menor consumo de matérias-primas, viagens espaciais menos dispendiosas, menores problemas de alimentação...”

“O Enigma de Andrômeda” se concentra na busca urgente de um pequeno grupo de cientistas em, primeiro, tentar compreender o estranho organismo alienígena e sua interação com o corpo humano, para depois buscar um meio de isolamento e combate aos seus efeitos devastadores. É um thriller biológico, repleto de detalhes que me fizeram lamentar ter ficado lendo Sidney Sheldon na escola enquanto os professores se esgoelavam para explicar sobre mitocôndrias, citoplasmas e seus amigos.

2 comentários:

  1. Passei a década de 70 lendo os livros de ficção científica de meu pai que em sua maioria era da década de 60 (bolsilivros) :-), posso dizer que poucas histórias não seriam válidas hoje... Claro que nenhum autor imaginou a internet como é hoje, mas tiro o chapéu pela capacidade imaginativa dos autores. Destaco a série Perry Rhodan, que leio até hoje e em especial um livro "Os mundos futuros" de Peter Kapra (pseudônimo).

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  2. Boas dicas, Everton! A série Perry Rhodan tem uma legião de fãs até hoje. Quanto ao livro do Peter Kapra, não conhecia. Procurei pela resenha e achei a história bem interessante. Vou incluir na minha lista. Abs!

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