Fico
meio ressabiado em ler obras de ficção científica escritas há muito tempo,
naquele subgênero que se pretende mais realista, enquadrado em evidências
plausíveis e não apenas na imaginação desregrada do autor. A ciência progrediu de forma
tão decisiva nos últimos anos que é grande a possibilidade de um desses títulos
antigos, lido hoje, soar inverossímil e defasado.
Em
boa medida, o receio é tolice da minha parte: não é porque Carl Sagan (morto em
1996) foi privado das fantásticas descobertas da sonda espacial Kepler (lançada
em 2009), por exemplo, que a obra do grande cosmólogo americano perde uma
fagulha de validade. Do mesmo jeito, não é porque Stephen Hawking
contradisse recentemente suas próprias teorias acerca da configuração dos buracos
negros que as explanações contidas em seu “Buracos Negros, Universos
Bebês e Outros Ensaios”, de 1993, se transformaram em material de descarte.
Por
outro lado, uma obra como “A guerra dos mundos”, de H. G. Wells, publicada no
final do século 19, que concebe a invasão da Terra por marcianos hostis, ao ser
lida hoje, com as informações que temos sobre o planeta vermelho, ganha
contornos da mais pura fanfarronice. Se pelo menos o conflito envolvesse astros
remotos sobre os quais pouco ou nada sabemos...
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| Sonda Curiosity |
Foi
nessa linha que apostei para investir em “O Enigma de Andrômeda”, do best-seller americano Michael Crichton, autor de "Congo" e "Parque dos Dinossauros". Embora publicado em 1969, o romance indicava tratar
de uma galáxia a 2,54 milhões de anos-luz da Terra. Baseado em Andrômeda,
pensei eu, qualquer enredo, por mais pirado que se apresente, não pode, em nossa
suprema ignorância, ser inteiramente desconsiderado.
(Por
isso mesmo um livro como “Contato”, do já mencionado Carl Sagan, transformado
em filme com Judie Foster, é tão poderoso até hoje. Ele fantasia a recepção de
mensagens alienígenas codificadas vindas da estrela Vega, a “apenas” 25 anos-luz
de distância – mas quem põe a mão no fogo para dizer que esse tipo de coisa,
vinda de tão longe, não é possível?)
No fim
das contas, de Andrômeda, no romance de Crichton, não há nada. E essa é a
principal frustração com o livro. Quem leva a sério o raio do título e espera
que a história de alguma forma se relacione com nossa galáxia vizinha, lá pelas
tantas descobre que foi apenas um nome aleatório dado ao objeto em torno do
qual a trama realmente se constrói: um satélite, posto em órbita da Terra para
coleta de eventuais micro-organismos existentes no espaço, que depois de um breve
sumiço reaparece, pousa numa pequena cidade do Arizona e provoca a morte de
quase todo mundo que se aproxima.
Não
são alienígenas cabeçudos que vêm escondidos dentro do satélite, mas um micro-organismo
desconhecido e letal, que os cientistas batizam, pimba, de Espécie
Andrômeda. Poderia ser Espécie Alpha Centauri, Espécie Constelação de Órion, Espécie
Canis Major – não faria diferença. Andrômeda entra como sinônimo de “não-sabemos-de-que-caralhos-veio-essa-coisa”.
Cogitei
cachorrada na tradução. Qual o quê! O título original conduz à mesma
embromação: “The Andromeda Strain”.
Superada
essa implicância titular, pode-se dizer que o livro é bom! A premissa de organismos
trazidos do espaço com os quais nossos anticorpos são incapazes de lidar me
parece bastante razoável. E a coisa fica mais interessante se considerarmos que
essas microscópicas entidades alienígenas podem apresentar características de
espantosa inteligência.
Destaquei
um trecho:
“[Na Terra] Ao se tornarem mais
inteligentes, os organismos cresciam, deixando o estágio unicelular, para se
transformarem em criaturas multicelulares e posteriormente em animais de
células diferenciadas, trabalhando em grupos denominados órgãos. Na Terra, a
tendência desenvolvera-se no sentido de animais maiores e mais complexos. Entretanto,
o mesmo poderia não se aplicar a outras partes do universo. Em outros planetas,
a vida poderia progredir em sentido inverso – em direção a formas cada vez
menores. Assim como a moderna tecnologia humana aprendera a fazer coisas cada
vez menores, talvez existissem pressões evolutivas super-avançadas conduzindo a
formas de vida menores. Haveria indubitáveis vantagens nessas formas menores:
menor consumo de matérias-primas, viagens espaciais menos dispendiosas, menores
problemas de alimentação...”
“O Enigma de Andrômeda” se concentra na busca urgente de um pequeno grupo de cientistas em, primeiro, tentar compreender o estranho organismo alienígena e sua interação com o corpo humano, para depois buscar um meio de isolamento e combate aos seus efeitos devastadores. É um thriller biológico, repleto de detalhes que me fizeram lamentar ter ficado lendo Sidney Sheldon na escola enquanto os professores se esgoelavam para explicar sobre mitocôndrias, citoplasmas e seus amigos.
“O Enigma de Andrômeda” se concentra na busca urgente de um pequeno grupo de cientistas em, primeiro, tentar compreender o estranho organismo alienígena e sua interação com o corpo humano, para depois buscar um meio de isolamento e combate aos seus efeitos devastadores. É um thriller biológico, repleto de detalhes que me fizeram lamentar ter ficado lendo Sidney Sheldon na escola enquanto os professores se esgoelavam para explicar sobre mitocôndrias, citoplasmas e seus amigos.


Passei a década de 70 lendo os livros de ficção científica de meu pai que em sua maioria era da década de 60 (bolsilivros) :-), posso dizer que poucas histórias não seriam válidas hoje... Claro que nenhum autor imaginou a internet como é hoje, mas tiro o chapéu pela capacidade imaginativa dos autores. Destaco a série Perry Rhodan, que leio até hoje e em especial um livro "Os mundos futuros" de Peter Kapra (pseudônimo).
ResponderExcluirBoas dicas, Everton! A série Perry Rhodan tem uma legião de fãs até hoje. Quanto ao livro do Peter Kapra, não conhecia. Procurei pela resenha e achei a história bem interessante. Vou incluir na minha lista. Abs!
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