29.10.16

A queda, de Diogo Mainardi



Certas matérias são tão dominantes na vida de um escritor que torna-se imperativo, mais cedo ou mais tarde, que ele as explore em seu trabalho. É o caso da paralisia cerebral de Tito, filho de Diogo Mainardi. Como poderia o ficcionista evitar o assunto ao redor do qual orbita sua rotina, seus temores, anseios, expectativas – toda sua existência, enfim?

Aceito o desafio inescapável, o risco de se enveredar para uma abordagem “vergonhosamente sentimental”, como expressa o próprio Mainardi, é enorme. Num raro modelo bem sucedido, Cristovão Tezza, em seu “O filho eterno”, escapa à armadilha ao tratar da síndrome de Down do filho de modo franco e despido de falácias. Por vias distintas, Mainardi obtém o mesmo bom efeito em “A queda”.

Em vez de valer-se de uma narrativa em terceira pessoa, como prefere Tezza, Mainardi escancara-se num relato autobiográfico duro mas igualmente sensível, pungente mas lírico à sua maneira cínica. O livro é fracionado em 424 trechos sucintos compostos de frases, citações, imagens, não mais que dois ou três parágrafos. Lê-se de uma sentada, graças à prosa fluente e às correlações habilidosas que o autor faz entre a doença do filho e as mais variadas coincidências históricas e artísticas, do Renascimento ao Holocausto, do cinema antigo à música pop moderna.

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