29.10.16

Diário de um fescenino, de Rubem Fonseca


Estava com quatro leituras em andamento, não pretendia engatilhar uma quinta, mas o romance é de tal maneira envolvente que, iniciada a ingênua passagem de olho pelos primeiros parágrafos, não houve jeito de interromper o fluxo até o término-fim, apenas dois dias depois. Dizem que foi concebido como encomenda temática da editora, e talvez isso explique a leveza e o descompromisso do texto, nem de longe indicadores de baixa qualidade, antes garantias de uma excelente peça de entretenimento que ri e se diverte de si mesma, contaminando o leitor. O fescenino em questão (obsceno, lascivo) é um escritor metido a erudito que nunca conseguiu repetir o sucesso de seu primeiro livro e agora vive mais enrolado com conquistas amorosas do que qualquer outra coisa. Sua ousadia concupiscente o levará a certas complicações que dão saborosa atmosfera policial ao terço derradeiro da história.

Trecho:

“Pela lei brasileira nenhuma mulher pode ser constrangida a fazer sexo, nem uma prostituta, nem mesmo a mulher do acusado. A conjunção sexual violenta sempre, quer dizer, desde que o direito passou a controlar a barbárie criando uma consciência no homem, e em quase toda parte do mundo, foi considerada um crime – Notzucht, viol, violación, rape, violenza carnale ou stupro –, cujo castigo varia de multa a pena de morte. Esse constrangimento a que se refere o artigo 213 do nosso Código Penal pode ser a vis corporalis ou a vis compulsiva, ou seja, violência física ou ameaça grave. A ameaça tem que ser coerciva em relação à vítima. Se um padre diz a uma beata de cinquenta anos que ela tem que fazer sexo com ele, do contrário vai para o inferno, está caracterizada a ameaça grave, uma velha beata tem mais medo do inferno do que de um revólver apontado para sua cabeça.

“O senhor está me dando um aula?”

“Você, por favor. Não, lamento ter-lhe dado esta impressão”, disse Gouvêa&Soares, nitidamente agastado. Ele devia gostar de exibir os seus conhecimentos, ouvindo as próprias vogais arredondadas saírem rolando da sua boca. “Pensei que o senhor, você, sendo um escritor, se interessaria por saber esses meandros da lei.”

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