31.10.16

Homem lento, de J. M. Coetzee


Fiquei curioso em saber como J. M. Coetzee, Nobel de Literatura em 2003, exploraria as consequências psicológicas da amputação de uma perna num homem de 60 anos já naturalmente propenso à solidão. Eis que, como imaginado, o escritor sul-africano conduz os eflúvios mentais do personagem Paul Rayment com grande destreza. Entre sentimentos de autocomiseração e fantasias de suicídio, Paul de repente se vê enamorado da enfermeira sob cujos cuidados está entregue. Tudo muda. Ele mergulha numa excitação hesitante. Deve abrir o coração, tentar uma investida? Mas a mulher é casada, tem filhos já adolescentes, e ele velho, aleijado, em posição tão frágil...

Nesse ponto surge uma personagem deslocada, Elizabeth Costello, e o compasso agradável se quebra. Alter ego de Coetzee, Elizabeth funciona como uma impertinente voz da consciência sobre Paul, e com seu lenga-lenga só faz chatear. Pior: o autor parece utilizar-se de Elizabeth para expor sua hesitação quanto ao grau de interesse que Paul seria capaz de despertar na condição de protagonista: “Quando fui bater na sua porta, não foi para descobrir como um homem anda de bicicleta com uma perna só. Eu fui para descobrir o que acontece quando um homem de sessenta anos compromete seu coração com a pessoa errada. E, se não se importa que eu diga, você até agora está sendo uma triste decepção.

Ainda que Elizabeth Costello constitua um par de grilhões sobre o ritmo da narrativa, não elimina os méritos de “Homem lento”. É um bom romance.

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