Fiquei curioso em saber como J. M. Coetzee, Nobel de Literatura em 2003, exploraria as consequências psicológicas da amputação de uma perna num homem de 60 anos já naturalmente propenso à solidão. Eis que, como imaginado, o escritor sul-africano conduz os eflúvios mentais do personagem Paul Rayment com grande destreza. Entre sentimentos de autocomiseração e fantasias de suicídio, Paul de repente se vê enamorado da enfermeira sob cujos cuidados está entregue. Tudo muda. Ele mergulha numa excitação hesitante. Deve abrir o coração, tentar uma investida? Mas a mulher é casada, tem filhos já adolescentes, e ele velho, aleijado, em posição tão frágil...
Nesse ponto surge uma personagem deslocada, Elizabeth Costello, e o compasso agradável se quebra. Alter ego de Coetzee, Elizabeth funciona como uma impertinente voz da consciência sobre Paul, e com seu lenga-lenga só faz chatear. Pior: o autor parece utilizar-se de Elizabeth para expor sua hesitação quanto ao grau de interesse que Paul seria capaz de despertar na condição de protagonista: “Quando fui bater na sua porta, não foi para descobrir como um homem anda de bicicleta com uma perna só. Eu fui para descobrir o que acontece quando um homem de sessenta anos compromete seu coração com a pessoa errada. E, se não se importa que eu diga, você até agora está sendo uma triste decepção.”
Ainda que Elizabeth Costello constitua um par de grilhões sobre o ritmo da narrativa, não elimina os méritos de “Homem lento”. É um bom romance.

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