31.1.17

Liberdade, de Jonathan Franzen


É um colosso, no tamanho e na ambição. O americano Jonathan Franzen não apenas conta histórias à solta: pinta todo um quadro da sociedade moderna de seu país, sem deixar passar curiosas veleidades e idiossincrasias. Mas não se limita a esse aspecto que, por si só, já garantiria cumprimento de uma das exigências ao ficcionista que se pleiteia duradouro: também explora a fundo complexidades psicológicas e comportamentais dos indivíduos. Não há espaço para certo e errado, sucessos ou fracassos retumbantes, personalidades puras ou desviadas: em tudo há nuances, relativismos, contradições – como na vida.

Os pontos de vista narrativos alternam-se entre figuras da mesma família no presente, passado e futuro. Além de pai, mãe, filho e filha, há também o aparecimento constante de um velho amigo dos pais. O trecho que menos apetece é o que descreve como o casal e o amigo se conheceram, nos anos 1970, então jovens universitários. Nem discuto a qualidade dessa parte específica; é só que a vida de jovens universitários, de maneira geral, seus assuntos, seus hábitos, suas cabeças, me aborrecem profundamente – discriminação temática da minha parte, nada mais.

Para calar minha boca quase de imediato, algumas das melhores passagens do romance vêm logo a seguir, sob a ótica do filho no período em que é um pós-adolescente às voltas com a namorada que o devota e a irmã absurdamente sexy e inacessível de um colega. O referido filho também se ajeita num trabalho deveras peculiar, envolvendo a busca, mundo afora, de peças de reposição para caminhões americanos no Iraque – desafio que o leva inclusive a uma bizarra viagem ao Paraguai, e que o cerca de agudos dilemas morais.

Para concluir: “Liberdade” é um livro sem pressa, analítico, contemplativo. Senti necessidade de o intercalar com outras leituras para tomar uns refrescos. A narrativa não é um monobloco primoroso – como seria, em 600 páginas? –, mas flui agradável e é pontuada por momentos de singular felicidade, alguns a saber:




“(...) Abigail, perdida e precisando correr atrás de restos de alimento emocional numa ilha de grande escassez (a ilha de Manhattan!), devia ser perdoada por monopolizar as conversas num esforço para se nutrir.”


“Walter precisava que ela se mantivesse sóbria à noite, para ouvir tudo que ele achava moralmente defeituoso no filho de ambos, enquanto ela precisava não se manter sóbria para não ter de ouvir. Não era alcoolismo, era autodefesa.”


“Aquele corvo comendo os filhotes de andorinha, os papa-moscas, os guaxinins que comem tantos ovos, os gaviões que matam tudo. As pessoas falam da paz da natureza, mas eu vejo nela exatamente o contrário da paz. É um morticínio permanente. Pior ainda que entre os seres humanos. ‘Para mim’, disse Walter, ‘a diferença é que as aves só matam porque precisam comer. Não matam com raiva, não matam ao acaso. Não é uma coisa neurótica. E por isso a natureza é pacífica. As coisas vivem ou deixam de viver, mas não é tudo envenenado de ressentimento, neurose e ideologia. É um alívio (...)’”


“Patty sentia como se estivesse às voltas com uma imensa bola de chiclete que não conseguia desprender dos dedos; os fios da lógica de Veronica eram infinitamente elásticos, e aderiam não só a Patty como a si próprios.”


“Ficou sentado por muito tempo com o rosto enterrado nas mãos, sem tocar na comida, enquanto a casa escurecia muito devagar, o mundo do início da primavera dando lugar a um mundo celeste mais abstrato: farrapos rosados de estratosfera, o frio profundo do espaço cósmico, as primeiras estrelas.”

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