O fato é que essas questões virtualmente essenciais tornam-se menores frente aos dramas humanos exibidos com grande sensibilidade pela narradora. Na terra desolada em que Anna Blume se meteu à procura do irmão, correspondente de um jornal que nunca enviou reportagens nem notícias dele próprio, estabeleceu-se uma espécie de lei da selva supervisionada à distância por autoridades nebulosas. A energia é gerada pela queima de lixo, excrementos e cadáveres; a comida é cara e escassa; há pouquíssimas opções de empregos, inacessíveis à maioria da população; clínicas de eutanásia e grupos de suicidas são muito populares; assassinatos, triviais.
Sobreviver nesse mundo é uma improbabilidade que Anna supera dia após dia com nada mais que sorte fictícia. Afinal, precisamos dela bem desperta para continuar escrevendo em seu caderno de capa azul. Abrigada no apartamento de um casal de idosos, no prédio da biblioteca nacional, em uma milagrosa instituição de caridade, ela tem contato com indivíduos em diferentes estágios de loucura e degeneração, enquanto mantém acesa a esperança de encontrar o irmão e talvez até voltar para casa.

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