17.11.16

Meia-noite e vinte, de Daniel Galera

Em meio a uma onda de calor devastadora e a uma greve de ônibus que paralisa a cidade, três amigos se reencontram em Porto Alegre. No final dos anos 1990, eles haviam incendiado a internet com o Orangotango, um fanzine digital que se tornou cultuado em todo o Brasil. Agora, quase duas décadas depois, a morte do quarto integrante do grupo vai reaproximá-los.

Daniel Galera se situa bem acima da média no painel dos autores brasileiros contemporâneos. Sempre atribuí o destaque sobretudo à fluidez pragmática de sua prosa, destituída de experimentalismos que tanto aborrecem e afastam leitores. Em “Meia-noite e vinte”, seu quinto título, o traço da agradável fluidez segue presente, enriquecido por uma recorrência de belas passagens que vem acrescentando cada vez mais densidade à obra do jovem escritor gaúcho.

A tal densidade, neste último livro, para mim, está mais ligada ao apuro na elaboração de frases e sentenças – leves e vistosas ao mesmo tempo – do que à temática em si: me parece superdimensionada a importância da revista literária online em torno da qual se ergue a trama, uma diabrura adolescente do fim dos anos 1990 cuja repercussão se estende até os dias atuais. Antero, um dos criadores, é reconhecido no meio da rua quase duas décadas depois; Duque, o principal nome da revista, é morto em uma tentativa de assalto e provoca algo perto de uma comoção nacional – fãs à porta do cemitério, agitação na imprensa e outros desmembramentos mais condizentes com a morte violenta de um ator de novelas, não de um escritor brasileiro marginal.

Mesmo a riqueza discursiva, ponto alto da obra, transparece certa inconsistência ao se dissolver na figura de três narradores: são todos muito bem articulados, precisos na transmissão de sensações e repletos de referências, mas faltam marcas que os caracterize individualmente e os diferencie um do outro de forma inequívoca e contundente, como se espera de vozes expressas em primeira pessoa.

Quando os protagonistas, na faixa dos 40 anos, se afastam um pouco de seus delírios de importância juvenil e se voltam às questões mundanas do presente, somos brindados com as melhores partes do livro. A descrição do trabalho de Aurora como pesquisadora da USP em genética da cana-de-açúcar é especialmente interessante e bem fundamentada.

Destaque também para a maneira com que certas intimidades são expostas, naturais, sem subterfúgios, em particular aquelas praticadas sob o anonimato da internet – além da sensibilidade de Galera de ter encarnado uma voz gay e um ponto de vista feminino sem decair num tom artificial e inverossímil.

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