6.12.17

Enclausurado, de Ian McEwan


A sinopse pega pelo colarinho: feto em últimas semamas de gestação, cheio de requintes e apurado senso crítico da sociedade moderna, acompanha os planos da mãe e do tio, amantes, para assassinar o próprio pai, ingênuo poeta. Imagine-se o livro!

O problema é que a ideia do bebê literato, filósofo, cientista político e apreciador de vinhos, embora transborde criatividade, não tem a menor chance de criar empatia com o leitor, por mais disposto que esteja em embarcar na brincadeira e até rir-se das boas tiradas. A sensação é de que se está a desperdiçar uma grande voz narrativa sob a roupagem de uma fantasia boba.

A história não traz muita ação, sobram monólogos empolados do embrião erudito e mesmo o elemento policialesco, que poderia acrescentar alguma carga dinâmica ao enredo, não se desenrola a contento – como ocorre, por exemplo, em “Solar”, excepcional romance do mesmo autor.

“Enclausurado” está longe de ser um livro ruim, e Ian McEwan tem muito crédito para gastar com as doideiras que quiser, mas a verdade é que, dessa vez, deixou um pouco a desejar.

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